Saturday, June 7, 2025

57 - A Política 2002

Lula Jango

Tribuna de Petrópolis

Novembro de 2002

Os Brasileiros terão direito a muitas fanfarras neste próximo janeiro, a comemorar, quase 39 anos depois, a restauração das condições de governo usurpadas pelo golpe de estado de Primeiro de Abril de 1964. Um verdadeiro conto do vigário aquela quartelada patrocinada pelas instituições clandestinas dos EUA que, a pretexto de "salvar" o Brasil do "comunismo" - cujas correntes não tinham condições para a tomada do poder no país - destruiu nossa independência econômica, as conquistas trabalhistas, e as esperanças democráticas dos milhões de concidadãos.

É inacreditável que a ditadura dos anos 60 tenha durado o dobro do "tempo lógico" previsível, assim como o período seguinte de "abertura democrática" tenha se estendido, sofridamente, o dobro do tempo necessário.

A brilhante vitória do metalúrgico Luís Inácio, que exibe neste momento grande preparo (em comparação com o Luís Inácio de 1989) nos reconduz, com muitas semelhanças, às condições políticas e governamentais do período 1955-1963. Assim como Luís Inácio da Silva, detinha na época o Presidente João Goulart amplo apoio eleitoral e sindical para a realização de algumas reformas profundamente necessárias, as reformas "de base". Assim como Goulart, dispõe no momento Inácio da Silva de razoável apoio em setores da burguesia nacional e na classe política. Ao contrário de Goulart, dispõe no momento Inácio da Silva de amplo apoio no setor militar, baixo e alto oficialato, os quais sentiram na carne os efeitos da abertura de nossa economia, e de nossa soberania, às estratégias de dominação do capitalismo internacional. Entretanto, diferentemente de Goulart, não dispõe Inácio da Silva do apoio de [alguns] setores importantes nos meios de comunicação. Como se sabe, os meios de comunicação, hoje em dia são muito mais decisivos politicamente que generais controlando tropas, ou que políticos dedicados ao exercício democrático. 

Atualmente, já dispomos de um levantamento sobre as condições sinistras de manipulação clandestina para a destruição das democracias latino-americanas nos anos 70, sob o mando da CIA, o que foi batizado sob o nome de Operação Condor. Sobre as ações da CIA nos anos 60 na América do Sul vide Dentro da Companhia - Diário da CIA, Phillip A.G., 1975, Ed. Civ. Brasileira.

Não foi feita, entretanto, uma reconstituição pública da figura de João Goulart, das enormes dificuldades políticas e das tramóias que teve que enfrentar para o exercício de seu mandato legítimo. Como em toda guerra em que os vitoriosos impõem suas versões, a figura de Jango foi descaracterizada, desrespeitada: quiseram apresentá-lo como se fosse “despreparado”, como se fosse indeciso e sem pulso, como se não tivesse projetos consistentes para o Brasil. Versões que podem ser facilmente desmontadas com um punhado de depoimentos e relatos históricos, o que poderia ser feito pelos meios de comunicação a qualquer momento, caso o desejassem.


Até o Jânio já conseguiu se instalar lá, no Palácio da Alvorada... porém o Jânio durou pouco, porque não tinha esquema, nem proposta de governo, nem condições como indivíduo político. Sua renúncia após sete meses foi a razão de toda a "crise", alardeada pelos meios de comunicação escravagistas mentais naquela época, tal como hoje.

Jânio foi eleito devido ao apoio da UDN em 1960: Nem o Marechal Lott, nem Juscelino Kubitschek, nem João Goulart tinham qualquer comportamento politico irregular ou duvidoso. Jango assumiu porque era Vice, e como Vice tivera tantos votos quantos Jânio, portanto poderia ter saído direto candidato à Presidencia.

Toda a crise na época foi consequência essencial de a UDN ter apoiado um candidato anti-político. A eleição de Fernandinho Collor repetiu a cena. A de Marina Silva, repetiria.

 

Uma das fontes seguras para uma justa compreensão das terríveis dificuldades colocadas no caminho de João Goulart, e do quanto ele era de fato um dos mais preparados políticos brasileiros para a tarefa que se impunha...[*], é o livro do acadêmico, pesquisador e jornalista Moniz Bandeira, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil, 1977, Ed. Civ. Brasileira.

Para que se compreenda a monstruosa deformação da biografia política deste brasileiro afável e bem-intencionado, basta que façamos referência a algumas passagens desta cuidadosa pesquisa de Moniz Bandeira, baseada em documentos e depoimentos originais daqueles envolvidos diretamente nos acontecimentos:

Nomeado por Vargas Ministro do Trabalho em 1953, ele suportou violenta campanha desde o primeiro dia de sua gestão. Durante oito meses, todos os dias, jornais burgueses, vinculados pela publicidade aos interesses das corporações internacionais, intrigaram-no e agrediram-no. A Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, orquestrava o coro, possivelmente financiada pela CIA, acusando-o de pretender, com Vargas, implantar no Brasil uma República Sindicalista, ao estilo de Perón. Os ataques recrudesceram quando ele sugeriu a elevação de 100% para os salários mínimos que vigoravam na época. E a campanha, primeira etapa do golpe para a deposição de Vargas, culminou com um memorial, assinado por inúmeros Coronéis e Tenentes, exorcizando o "comunismo solerte" e condenando a medida anunciada, sob a alegação de que subverteria os valores profissionais.

"Goulart caiu. Mas, segundo ele próprio salientou, não se deixaria intimidar com o descontentamento que sua conduta provocara - 'naqueles que vivem acumulando lucros à custa do suor alheio'. Ao resignar o cargo de Ministro do Trabalho, encaminhou a Vargas os estudos para a adoção de várias medidas de maior alcance: revisão dos níveis de salário mínimo, congelamento dos preços, extensão das leis sociais aos trabalhadores do campo, e fiscalização, pelos próprios operários, do cumprimento da legislação trabalhista. 'Acredito que tenha colaborado para dar um sentido mais social e mais cristão à nossa democracia' - escreveu a Vargas..." [pags. 31, 32]

"Apesar das infâmias que aturou, Goulart se elegeu Vice-Presidente da República, em 1955, com 3 milhões 591 mil e 409 votos, meio milhão a mais que o seu companheiro de chapa, Juscelino Kubitschek. Como ele própro declarou, era - 'a resposta do povo aos inimigos do regime, que se preparavam para assaltar o país, instituindo o Governo dirigido à distância pelos trustes internacionais, durante o qual seriam liquidadas as conquistas sociais alcançadas pelo trabalhador'. " [pag. 35]

"Ao contrário do que seus adversários difundiram, Goulart não estava despreparado para dirigir o País, quando chegou a Brasília, após dez dias de crise, em 7 de setembro de 1961. [**] Tinha mais condições de exercer o cargo de Presidente da República, do que Jânio Quadros e, quiça, do que o próprio Kubitschek, em 1956. Levava um programa de governo - o das reformas de base - e larga experiência na política federal, o que lhe dava uma visão mais ampla, menos provinciana, dos problemas brasileiros. Bacharel em Direito, fôra Secretário de Justiça do Rio Grande do Sul (governo de Ernesto Dornelles), Dep. Estadual e Dep. Federal, estivera no Ministério do Trabalho e, por duas vezes, se elegera Vice-Presidente da República, ocupando, cumulativamente, a Presidência do Senado Federal." [pag. 43]

A lição que se impõe no livro de Moniz Bandeira é a de que não é suficiente para um Presidente reformista estar bem preparado e ter bons planos. As reformas são atacadas justamente em função de sua viabilidade... Se for moderado, o Presidente é acusado de não ter pulso firme, se tem pulso, é acusado de ser radical comunista. Esse é o velho-novo desafio entregue ao presidente Inácio.

 

[*] As chamadas reformas "de base": significavam apenas as garantias do estado nacional ao trabalho no campo e na cidade; posse da terra, apoio legal do estado aos sindicatos, etc. A idéia do aumento de 100% do salário mínimo poderia parecer demasiado apressada, e pode ter sido um erro de cálculo político do jovem Ministro do Trabalho em 1953 (que lhe custou o cargo). Entretanto, seu efeito seria a de um tremendo desenvolvimento da produção e mercado interno, e das pequenas empresas que passariam a existir para um novo povo brasileiro mais “capitalizado”. Talvez apressado, mas correspondendo em justa medida às necessidades econômicas da nação.

[**] Após a renúncia de Jânio Quadros. O voto para Vice-Presidente na época era separado do voto para Presidente; ainda que cada partido tivesse sua chapa para estas candidaturas - o Marechal Lott era o candidato a Presidente na chapa do Jango. Ou seja, ao renunciar, de modo semi-consciente, o Jânio reconstituiu a cena original, em que Jango seria o candidato a Presidente, e vencedor em 1960. Teria tomado posse naturalmente, e governado, se não fosse o rugido obsceno da extrema-direita militar, atiçada pelo imperialismo.


Friday, June 6, 2025

56 - Patrimônio Histórico

Reflexões sobre o Sentido do Patrimônio Histórico em Petrópolis do Ponto de Vista do Turismo e da Formação Cultural





Palácio de Cristal - A Princesa Isabel recebeu do Conde D'Eu a construção deste Palácio em 1884, na praça Koblenz, local de encontro das famílias de colonos alemães. Ele foi coberto com paredes cristalizadas foscas, que depois foram substituídas por paredes de vidro. Este bibelô transparente seria lugar para jardins agrícolas e florais.
Em 1938 as paredes foram retiradas, e as estruturas cobertas com folhas de flandres, para abrigar o Instituto Histórico. No início dos anos 1960 o prédio quase foi destruído, mas os preservacionistas garantiram sua refundação, reinstalando as paredes de vidro.



[1] O hábito de se guardar peças, monumentos e edificações para a admiração de visitantes em suas passeios de lazer parece tão justificado e arraigado que mal nos damos conta do quanto podemos estar perdendo em termos de real patrimônio histórico. Também em relação aos estudantes do segundo grau, p. ex., cujas visitas aos museus deveriam ser atos cívicos e de instrução, mas que apenas resultam em contidos e solenes atos de admiração... Visitantes de cidades interioranas, num outro exemplo, estariam em nossa cidade ávidos para ter em seus olhos o ouro da coroa monárquica e as cenas da guerra do Paraguai em heróicos painéis.

A cultura da homenagem, da reverência, da eloquência patriótica em relação aos vultos históricos tem sido um ritual já tantas vezes repetido e consagrado: Tiradentes e D. Pedro I; o Barão de Mauá e Santos Dumont; a Princesa Isabel e Rui Barbosa, todos pertencentes a uma paisagem ideal de vultos que cabe demonstrar ao turista atônito e ao estudante distraído.

Rituais que se tornam cada vez mais fáceis ao longo das décadas na administração pública, numa monótona sequência de calendários, ícones, santuários, exaltações, comemorações com frases feitas para estudantes.

Entretanto, qual é o verdadeiro patrimônio histórico que se está a perder de vista depois de tantas décadas de celebrações oficiais de ícones?

São as informações que dão a conhecer a história de como vivia nossa sociedade, quais eram as características dos povos nos séculos de formação, seus costumes; quais as forças e interesses em jogo na vida econômica, como se deu o esforço político de manter a unidade nacional, e assim por diante. A possibilidade de se vivenciar as cenas históricas como educação cultural, cívica, interpretativa.

Não havendo uma educação histórica para os monumentos eles se tornam apenas uma burocracia turística, uma bilheteria, um breve circuito antes da gastronomia.

[2] Para se substituir a cultura do deslumbramento e das homenagens seria necessário se rever a imagem de cidade histórica, tal como é dada ao turismo, enquanto “cidade imperial”. Ao invés do ícone, que deveria ser dado ao interesse turístico, cultural, educativo, de “cidade-patrimônio do séc. XIX” (e ainda da República Velha)  -- o que temos é um ícone, e um jargão simplificador, que designa de “imperial”, todo um período, um acervo, que correspondem de fato à imagem de um Reinado “tropical”, cheio de desafios e contradições...

Em que pese a unidade militar e linguística ao logo do litoral, a imagem de um “Império”, que vem de tempos alexandrinos e romanos não corresponde exatamente à mistura de etnias, selvas e sertões inconquistados; e conflitos militares permanentes para se manter uma extensão territorial que é de fato assombrosa (por comparação com as nações espanholas). Entretanto, o domínio sobre a extensão territorial não significa a unidade nacional monárquica, de formação dos povos, de administrações regionais, e cartas legais sobre todo o território.

Enquanto verdadeiro Reinado, sem as exaltadas pompas patrióticas, a nação luso-brasileira de Dom João VI a Dom Pedro II nos desperta, por razões mais realistas, a admiração, o interesse para estudo, a curiosidade, e ainda o culto dos feitos heróicos e simpatia compreensiva para com os atos desastrados.

Por um aspecto, a imagem de “império”, escolhida pelo herdeiro de Dom João VI como grandioso programa político futuro, não deveria supor seu uso qualificativo para as cidades-sede ou de veraneio de nossos estimados monarcas: a transferência adjetiva se justifica como referência inicial ao patrimônio, como comentário sobre quem construiu tais urbanidades – não se trata de roubar o sentido turístico evidente: Entretanto, num sentido acadêmico, e no sentido de se educar os turistas e estudantes para além da identificação mais fácil, a reincidência do adjetivo imperial revela deslumbramento e preguiça mental em se contar verdadeiramente a História dos períodos, monarquia e república velha. A repetição mecânica e laudatória torna mais enfadonha a visita turística, ao passo que as verdadeiras informações sobre como se vivia, quais eram as formas das sociedades históricas - dariam ao turista, ao estudante, o enlevo e a curiosidade para uma visitação mais demorada.

O excesso de exaltação leva a seu oposto: a depreciação, a sátira, a destruição da brasilidade enquanto auto-estima. Por razões que poderiam ser determinadas, a cada sentença patriótica padronizada, o “descobrimento”, a “chegada da corte”, a “proclamação da independência”, a cultura brasileira real criou seus negativos, com anedotas depreciativas. É como se uma parte da brasilidade se voltasse contra si mesma, não permitindo a formação de imagens mais sinceras e interpretativas.

Este aspecto é bastante relevante para os estudantes do 2º Grau, que estão formando sua imagem histórica da cidade junto com sua cidadania. A repetição das anedotas fáceis sobre os feitos históricos, assim como sua exemplificação em um elenco mínimo de atos isolados que devem servir para memória, exaure inteiramente o sentido educacional que se poderia esperar.

Numa revisão mais sensata, as idéias de “cidade histórico-turística” (clima e ambiente), ou “cidade oitocentista” (como Ouro Preto, cidade setecentista), ou “cidade histórica da monarquia e república velha” (adequada definição acadêmica) corresponderiam aos ícones mais autênticos, que deveriam estar numa primeira linha de expressão para a linguagem pública e administrativa; e de compreensão para interessados na História. A idéia de “cidade imperial” apenas como uma qualificação auxiliar, nos dispensa da fatal tonalidade provinciana com que aparecemos ao público mais educado.

Há uma certa ilusão de auto-estima nos repetidos adjetivos “imperiais” adotados a cada monumento; da mesma forma a aspiração a um certo “condado aristocrático”. Entretanto, estas aspirações imaginárias correspondem a realidades palpáveis, a serem adotadas como auto-estima: “Nesta cidade projetada por um engenheiro renano no séc. XIX, convocado pelo Rei, nós podemos desfrutar de um ambiente histórico e aristocrático”. Ao invés do “monarquismo”, a compreensão dos valores aristocráticos para o estudante de História. Ao invés do deslumbramento ingênuo, a curiosidade e o lazer culto para o turista.

Se torna claro que as leituras sobre as monarquias e o período aristocrático europeu são atualmente todas feitas a partir da revolução burguesa e dos valores da nova classe burguesa e seus autores no séc. XIX. Isto explica ora uma exaltação desproporcionada por parte daqueles que gostariam de estar na condição aristocrática; ora inversamente, explica um certo ressentimento em ler o período aristocrático-monárquico somente sob seus aspectos críticos. Isto se repete em nossa cidade até nossos dias, impedindo uma leitura interpretativa e útil sobre o patrimônio. (Que se estende continuamente como urbanização mais elegante durante a República Velha).

Seria necessário assim destronar conceitualmente a imperialidade dos dois Pedros -- E lhes conceder um papel mais realista de Reis lusitanos tropicais. Esta seria a forma compreensiva, de uma Cultura, em resolver as contradições de uma identidade nacional imperializada, ora exaltada, ora desconhecida, ora depreciada. É nesta imagem de benevolentes Reis lusitanos que podemos depositar nossos respeitos cívicos e nossas celebrações de auto-estima: sendo os monarcas compreendidos por sua sincera devoção ao povo; e da mesma forma por suas ausências, por sua falta de objetividade, ao merecer os títulos imperiais – e assim por diante, numa sequência lógica e sentimental coerente.

Esta imagem de Dom Pedro, primeiro Rei do Brasil, e vigésimo-oitavo Rei de Portugal, apoiado e aceito pela burguesia nacional em seu advento, com suas abdicações e convicções anti-absolutistas, que devemos abrir ao estudante como História; que interessa ao turista ouvir o relato cheio de peripécias. Como um “Rei”, de dimensão compreensível, anti-escravagista, capaz de sair com seus auxiliares pelas noites quentes do Rio de Janeiro. Como “Imperador”, incompreensível, um enigma, como se existisse somente para os grandes atos se tornaram os ícones patrióticos.







Nossa Princesa Isabel: nem Rainha; nem insustentável Imperatriz...





A Lei de proibição do trabalho escravo teve valor mais iconográfico ou simbólico, do que prático: porque seria necessário igualmente dar aos libertos lugar de vivência, e material de produção. Porém, devido ao impacto econômico e moral sobre os feudais-burgueses, a Princesa foi destronada por um golpe de estado militar. Este novo regime tem a característica de uma ditadura de burguesia rural contra a ascensão das classes trabalhadoras, ao passo que a monarquia da Princesa seria social-reformista. (Nas décadas de 10 e 20, os comunistas e anarquistas se multiplicaram; e talvez por causa disso mesmo).

Somente a revolução de 1930 pode ser considerada o início da vida liberal burguesa brasileira, no sentido de um estado republicano capaz de substituir a ordem monárquica.


[3] Sem dúvida não há ato administrativo, ou legal, que poderia nos levar a destronar um Imperador de imagem grandiloquente, difusa e contraditória, e dar posse a um Rei, que fosse mais popular, mais compreensível, mais útil àqueles que querem visitar sua imagens para saber como se formou o mundo brasileiro.

Os orgãos públicos poderiam apenas colaborar para a disseminação de idéias de valor histórico adequado, sob o interesse da cidadania, e também do turismo.

A solução para a falta de cultura crítica sobre o patrimônio histórico petropolitano se daria naturalmente com a implantação de um Instituto de cursos de extensão e de pós-graduação em História e Ciências Sociais Brasileiras na cidade.

Levando-se em conta sua tradição de Ciências Sociais e História, e possivelmente as possibilidades de atribuições funcionais e administrativas, mais provavelmente a Universidade Federal Fluminense poderia ser cotada para instalar um tal Instituto de Pós-Graduação.

Simultâneamente, seria necessário se saber qual disponibilidade e interesse a administração do Museu Imperial teria em participar, tendo em vista seu acervo bibliográfico. Esta seria uma iniciativa que poderia ser tomada pela Prefeitura Municipal, através da Fundação de Cultura.

Igualmente, o Instituto Histórico de Petrópolis deve ser mencionado por seu papel pioneiro, e por ter antecipado esta necessidade de extensão acadêmica na cidade. Levando-se em conta ainda seu acervo de estudos, artigos e literatura, a direção do I.H.P. poderia ser convidada a participar da coordenação de tal projeto.

[4] Em relação à expectativa turística, para turistas que deveríamos estar recebendo dos países europeus, incluindo aqueles pertencentes a nosso passado, a imagem de império e admiração de palácios se torna provinciana porque os palácios de verão da serra petropolitana são cópias menores de algumas dezenas de originais portugueses, espanhóis, franceses. Pela mesma lógica, estes turistas, que jamais nos visitam, teriam interesse em subir a serra por uns dias de mata atlântica e mansões oitocentistas de colonizadores – desde que este cenário fosse um fundo pitoresco para seu lazer/veraneio sulista. (Tenha-se em conta, p.ex., a quantidade de navios atracados na praça Mauá no verão, com milhares de turistas para o Carnaval, que poderiam estar se tornando turistas serranos).

Ao invés dos ícones de exaltação e pontos de peregrinação, que não interessam a estes turistas internacionais, o que teríamos aqui seria uma paisagem pitoresca, na qual as informações históricas são apenas um fundo agradável para programas artísticos e gastronômicos. Para tal, os quarteirões em torno do que se convencionou chamar de centro histórico seriam definitivamente adaptados como áreas de “calçadões” contínuos, com restaurantes, quiosques, bares musicais, de modo que o turista realmente se sinta motivado a tomar o conjunto do ambiente histórico como seu local de visita. A socialização com as gentes de uma cidade sul-americana é tão importante para o turista (tal como para nossos visitantes no exterior) quanto a tomada das informações históricas, ou a boa comida. Através das decorações boêmias e artísticas do centro histórico, de seu ambiente receptivo, o turista absorve com interesse as informações históricas: a época “monárquica”, a “Guerra do Paraguai”, a “República Velha” - (A trilha de Bernardo Proença em 1724, até a selva densa e encharcada, onde depois Dom Pedro, das dinastias de Bourbon & Bragança, teve dificuldades para iniciar a construção de seus palácios de verão...)

Como ponto central de referência ao turista, a praça dos Expedicionários teria sua destinação revista, para abrigar um amplo quiosque de recepção, onde se teria o anúncio da programação cultural, com venda de tickets para programação cultural conjugada com visita aos pontos históricos. Um mapa vertical, artístico, com as indicações de interesse ao turista; guichet de contato para guias, etc. O monumento militar dos Expedicionários cederia seu lugar para esta nova praça, sendo escolhido outro local igualmente valorizado para este monumento, acrescido de mais informações militares para um memorial. Ao valor desta praça enquanto “praça do Teatro” se acrescenta o valor turístico, concedendo um aspecto cosmopolita e acolhedor ao Centro Histórico. Nas praças Rui Barbosa, e do monumento Koeler junto à Catedral, mais dois quiosques de recepção turística reforçam o aspecto acolhedor do Centro, de modo que o turista se sente motivado a percorrer a pé, por conta própria, os quarteirões.

[5] É nesse cenário que uma Fundação de Turismo e Cultura tem seu papel realçado como órgão planejador da Cultura petropolitana, além de produtor de eventos e realizações artísticas:

Promovendo a imagem internacional da cidade. Promovendo uma visão realista e autêntica sobre o sentido do patrimônio histórico. Educando o cidadão local para a perspectiva histórico-turística. Colaborando com uma Secretaria de Cultura independente, para a aplicação de programas baseados na reflexão crítica, especializada, sobre a História local. Assumindo a iniciativa para a implantação de um Instituto de pós-Graduação (sécs. XIX e XX). Articulando as experiências e os acervos do Museu Imperial e do Instituto Histórico. Articulando o interesse empresarial sobre estas atividades turísticas e culturais, incluindo-se o da empresa jornalística da família Orleans e Bragança – estes que seriam os primeiros interessados em se “destronar” um Imperador abstrato e monumental, em lugar de um “Rei” mais plausível e sedutor.

[6] Ainda que o antigo Centro de Cultura Raul de Leoni, novamente transformado em Secretaria de Cultura (tal como nos anos 80), não viesse a se tornar órgão independente da Fundação (conforme em outro documento de projeto), seria necessário que se fizesse um desmembramento de atividades e atribuições internas desta.

Uma Secretaria de Cultura, como órgão não-empresarial, tipicamente governamental e de fomento, lida diretamente com o público interno, com os artistas da cidade, para o desenvolvimento de projetos culturais, na forma de concepções artísticas, interpretações históricas, etc. Uma Fundação Turístico-Cultural, como órgão empresarial, reforça os programas da Sec. de Cultura, promovendo a imagem nacional e internacional da cidade.

É a Fundação, enfim, que tem a capacidade executiva de propor os projetos de turismo e cultura, em paridade com o conjunto das políticas governamentais da Prefeitura, influenciando na determinação destas políticas. Certamente, não como um órgão que trata de suas administrações de forma isolada, autônoma, porém sem interferência nas decisões que afetam o conjunto das políticas administrativas municipais.




















Reformas Urbanas

[a] Para merecer seus títulos turísticos, já há muito a cidade petropolitana deveria ter obtido o controle completo da Prefeitura sobre as linhas de ônibus. Fica claro que não se pode falar de cultura, de artes, de turismo, se não somos capazes de resolver os problemas de trânsito. Para que o Centro Histórico fosse formado por calçadões quase contínuos, seria necessário que as vias centrais fossem atravessadas por faixas únicas e exclusivas para carros particulares, e faixas únicas e exclusivas para coletivos de maior porte. A aplicação das linhas exclusivas axiais, ligando os extremos da cidade não foi feita ainda em nossa urbe, apesar de consagrada pelo mundo afora. Estas vias exclusivas podem comportar coletivos maiores e frequentes, ao passo que em suas pontas, linhas de coletivos de pequeno porte podem partir na forma de estrelas regionais.

Quais os atos cívicos, políticos, administrativos necessários para que as linhas de ônibus sigam trajetos mais razoáveis e sob o controle do interesse público? E não de acordo com a autonomia das empresas em escolher trajetos e carrocerias de coletivos inadequados? Como se realizar a necessária duplicação da entrada/saída da Rua-avenida central através do túnel no interior da abandonada fábrica Alcântara? (Agora que a Companhia de Águas privada instalou sua estação de filtragem no caminho?) Por sua vez o hábito do automóvel individual, arraigado para as classes médias que reclamam do departamento de Trânsito... como poderia ser substituído por um outro hábito de se dirigir ao centro histórico?

Nenhum destes costumes poderiam ser modificados através de leis ou decretos institucionais. Somente através da compreensão coletiva de sua necessidade de modificação, através do sacrifício individual para com o interesse público, poderiam novos costumes ser instaurados. Nesse sentido é que compreendemos a necessidade da educação cultural, que precede os atos cívicos e políticos.

[b] Uma verdadeira interferência na paisagem arquitetônica e no trânsito no Centro Histórico – para que de fato se tornasse aprazível ao turista, e justificasse seu nome – só teria sentido político e ético, se fosse compensado por outras interferências na paisagem urbana, abrindo espaços recreativos e comerciais para as classes trabalhadoras, rurais e médias dos bairros afastados. Jamais uma interferência urbanística, como ato administrativo, como realização de obras, poderia ser admitida, sem o encaminhamento prévio à comunidade, na forma de um projeto econômico, ou de convivência social. Neste caso, projeto de educação cultural.

A exemplo da administração municipal 2004-2008, que deu início à reforma da paisagem no centro da cidade sem liderar a comunidade, sem apresentar um projeto social coerente (trânsito, comércio, turismo), é preciso evitar o sentido de obras que surgem como atos administrativos autocráticos, que não resultam de uma coerente composição do interesse social. Na medida em que obras de interferência resultam da articulação da Prefeitura com as classes e setores econômicos, elas são previamente entendidas e aceitas, em qualquer prazo ou proporções de contratos.

Não há funcionalidade pura de pranchetas técnicas que possa substituir a habilidade política em compor e recompor o interesse social, de compreender e interpretar as necessidades físicas do Município. Uma reforma exemplar do Centro Histórico resultaria num perfil econômico de preços mais elevados nestes quarteirões, em relação ao padrão do Município, em função do comércio turístico mais refinado, o que é do interesse de um setor de classe. Uma interferência tipicamente compensadora, seria a caracterização de uma área de mercado e cultura popular no entorno praça da Inconfidência / Mal. Carmona / Rodoviária. Com uma certa habilidade em se distribuir os espaços abertos de feiras, as quitandas, os super-mercados e terminais de ônibus, esta área seria “popular”, porém não numa descontinuidade de cuidados arquitetônicos e aparência com a parte central, mas num sentido compensatório para se alojar o comércio de utilidades afastado do setor turístico. A habilidade administrativa estaria em atrair os turistas para as feiras populares; no outro aspecto, não permitir que as classes de menor renda se sintam excluídas do Centro Histórico, criando atrativos internos na forma da educação cultural, artística.

Característica de uma administração autocrática, tecnocrática, que não interpreta as necessidades sociais, a rodoviária-terminal do Bingen, é exemplo de desperdício em investimentos “faraônicos”, de duvidosa concepção e ausência de preocupação com seus efeitos na vida diária profissional dos cidadãos. Levando-se em conta estatísticas de cerca de 18 mil petropolitanos que trabalhavam no centro da cidade do Rio de Janeiro, até a inauguração deste terminal, seria mais sensato se manter uma quantidade de linhas da rodoviária central (Mal. Carmona, ou outra) até o Castelo. Estas saídas do Centro para o Rio de Janeiro dividiriam os passageiros com mais 3 terminais para o Rio: do Bingen, do Quitandinha, e de Itaipava. Nos fins-de-semana, as viagens até a rodoviária central permanecem para os turistas.

O terminal do Bingen, feito para atrair turistas para o comércio do bairro, é um local de névoas geladas, como se sabe, que seriam em si mesmas atrativos “turísticos”... Entretanto, por ser lugar inóspito (em conflito ambiental, perigoso para ônibus de passageiros na br-040), deveria ser desativado para passageiros, com exceção de ¼ das linhas para Rio / Niterói. Mantendo-se sua estrutura, se transformaria em terminal de cargas.

Na saída Quitandinha, onde está o atual super-mercado “sendas”, também uma praça de mercado popular, comércio de utilidades e terminal de ônibus poderia ser instalada. Desse ponto sairiam ¼ das viagens para o Rio. E ainda uma quantidade de linhas locais de pequenos ônibus e transportes menores. É importante observar que os embarques para ônibus em “praça aberta” são mais interessantes para a população, e não os embarques em terminais fechados, onde se fariam as baldeações. Nesse caso, aqueles que se dirigem a suas residências ficam encerrados e entediados, sem acesso à praça comercial. Nessas praças a Prefeitura também deve investir em eventos artísticos e educativos. Com mais uma praça deste tipo em Itaipava/Bonsucesso, e terminal para mais ¼ das viagens ao Rio, podemos compor um projeto para a paisagem social de Petrópolis.

(c) Como um aspecto a ser considerado, do ponto de vista da formulação da cultura de nossa aristocrática cidade serrana, do ponto de vista da descoberta de sua identidade e auto-estima, uma reflexão final deve ser dirigida ao fato de que uma classe média se formou na cidade a partir do comércio, com uma certa identidade nos anos 60 e 70. Nos anos 80 e 90, uma outra classe média, com perfil de renda um pouco mais elevado, veio do Rio de Janeiro, para se instalar na cidade, disputando com a classe média inicial, por assim dizer, seus espaços habitacionais, culturais, políticos. Esse aspecto explica uma certa dificuldade em se definir a vocação da cidade, e deve ser levado em consideração cuidadosamente, ao se definir projetos municipais socialmente consequentes.

C.M.B. // 2004


Thursday, June 5, 2025

55 - Prefeitura Petropolitana

Fundação Cultural-Turística e Secretaria de Cultura

[A] A Fundação Cultural (hoje de Cultura e Turismo) ao ser criada durante o governo Sergio Fadel acumula duas funções distintas, e em alguns aspectos contraditórias.

Uma verdadeira preocupação com o que se poderia definir como uma política cultural deixou de existir com a extinção da então Secretaria de Cultura, passando a vida cultural da cidade a ser gerida em termos da “produção de eventos e festas”, num molde que seria característico de uma Fundação para o turismo.

Não seria preciso dizer que, do ponto de vista do interesse turístico, empresarial, comercial, uma fundação tipicamente turístico-cultural, tem um mérito próprio (na sociedade, no mercado) que deve ser enfatizado. Este mérito, na administração municipal, deixa de ser contraditório em relação à política cultural, como veremos adiante, caso a política cultural seja desmembrada da administração da FCTP, se tornando orgão independente.

Ao ser criada, num modelo de produção de espetáculos, a administração da Fundação Cultural passou a ser concebida como autocrática, funcionando nos termos empresariais com “gerentes”... A referência aos artistas e criadores culturais da cidade para a confecção da programação deixou de ser enfatizada: esta era de certa forma “concedida” aos artistas, que deveriam se sentir satisfeitos por receberem contratos e cachês, de uma forma individualizada, desunida, e em alguns exemplos exclusiva, e mesmo politicamente clientelista.

É hora de reestabelecermos uma verdadeira política cultural na Cidade, o que deveria ser realizado por uma Secretaria de Cultura que funcionasse como o reflexo e a representação da classe artística e dos criadores culturais da cidade. Essa Secretaria, que não necessitaria ser de grande porte, seria autônoma, em termos de um orçamento anual prévio, para a realização de cursos, oficinas e apresentações de artistas locais no padrão dos festivais anuais.

A Fundação Cultural-Turística tem sua razão de ser na produção de festas e eventos de grande porte, porém numa politica inteiramente diversa da Secretaria, por ser um orgão arrecadador de patrocínios da iniciativa privada e de orgãos nacionais/ internacionais, sendo portanto um orgão que atende aos interesses da classe empresarial ligada ao turismo e ao comércio, podendo contratar cachês artísticos de alto valor, p. exemplo. Na medida em que estão em jogo os interesses turísticos, de preservação custosa do patrimônio histórico, e a consequente movimentação vultosa de recursos, é natural que isto seja feito através de uma Fundação, que capte recursos externos, desonerarando os cofres municipais. Deve-se levar em conta que uma política empresarial e promocional bem feita, a nível internacional, pode ser capaz de gerar de fato os enormes recursos (bancos de fomento, unesco) que seriam necessários para uma verdadeira restauração do centro histórico, sem o que as restaurações continuarão a ser reformas de pontos localizados.

Sendo a Fundação capaz de trazer nomes nacionais e internacionais à cidade, uma Secretaria de Cultura tem funções bem opostas, porque teria a finalidade de fomento das tradições e da identidade histórica, promovendo as carreiras artísticas desde suas origens mais frágeis e amadorísticas, educando os estudantes nas diversas oficinas. Neste sentido a Cultura necessita ter uma Secretaria semelhante à de Educação, ou de Ass. Social.

Sob estes aspectos, a Fundação, como órgão empresarial, cosmopolita, autônomo e iconográfico em si mesmo, deveria necessariamente estar instalada num dos casarões antigos da cidade.

O Centro de Cultura Raul de Leoni, cujo prédio com janelas de vidro vedadas (que resultou de uma biblioteca com ar refrigerado dos anos 70, que nunca chegou a ser instalado), após tantos anos de uso inconveniente, ficou consagrado em sua utilização enquanto Secretaria de Cultura desde os anos 80. A sala de 160 lugares, as salas para cinema, dança, exposições, oficinas, deram ao lugar sua característica definitiva para a prática das artes e cultura municipais. Desde que realizadas necessárias reformas arquitetônicas e de ventilação, este prédio deveria ser mantido como ponto de referência social, como referência enquanto “lugar dos artistas” e Sec. de Cultura. Nesse caso, não para os espaços administrativos da Fundação, ou outro orgão.


Anos 30 em frente ao Grande Hotel: ali é o encontro do Rio que vêm do Palatinato com o Rio que vem do Quitandinha. A construção do Obelisco nesse lugar em 1957, além do péssimo mau-gosto, tirou dos passantes a visão da confluência em 180 graus dos dois Regatos.

 

[B] A partir de sua pauta inicial de trabalho, a Sec. de Cultura vai atuar em parceira com a Fundação. Com o tempo, a vida cultural que a Fundação e a Secretaria promovem, se tornam complementares. É do interesse da administração municipal que a Secretaria de Cultura dê formação a artistas locais, os quais podem ser apresentados pela Fundação em eventos de grande porte, locais ou nacionais, feiras, etc. Em consequência a Fundação pode acrescentar verbas específicas além daquelas previstas nos orçamentos anuais iniciais da gestão da Sec. de Cultura. Desta forma, apenas para realizações excepcionais, o Sec. de Cultura estará requisitando verbas extras à Fundação na base de patrocínios concedidos a partir do projeto artístico.

Uma forma clara e imediata de se definir uma Secretaria de Cultura é que ela seria uma Casa dos Artistas, lugar físico de encontro e deliberação. Esta vivência, entretanto, se daria de modo permanente, e não apenas em função de demandas localizadas, conforme é a tendência generalizada em todas relações institucionais. Através de comissões e representações setoriais, e na medida em que esta Secretaria abrigasse um bom número de salas de oficinas e cursos, os dirigentes responsáveis por esta Secretaria teriam uma visão e um contato direto, em escalar maior, das tendências e demandas dos elementos ativos e criadores na cidade, de modo que a Secretaria teria uma pequena vida social interna.

É claro que para estas funções seriam designados aqueles líderes comunitários, da classe artística, partidários, etc, ligados às preocupações sociais. O perfil desta Secretaria é bem diverso do atual modelo empresarial-clientelista da Fundação, sendo um orgão com finalidade de fomento e proteção ao corpo social, como as Secs. de Assistência Social e Meio-Ambiente, operando portanto com uma visão de orçamento a fundo perdido.

A demanda de que o Secretário de Cultura tenha já previsto e designado, a cada ano, seu orçamento básico para a produção cultural, é compensada pelo fato de que este orçamento é infinitamente menor em vista das outras Secretarias municipais.

 

Diretor de Cultura

[C] Um Secretario de Cultura, nestes termos, se torna um verdadeiro Diretor de Cultura: como membro da classe artística, suas políticas são consequência da vivência direta dos desafios ao longo do tempo. Assim, ao assumir a administração pública, este Secretário estará apenas concentrando mais na instituição pública aquelas reflexões e experiências já existentes. Com o tempo, uma Secretaria de Cultura, como local de encontro da classe, passa a ser fomentadora das políticas culturais, além dos programas culturais.

Sempre buscando o ofício da experiência direta, em lugar da burocratização e da regulamentação que parecem sempre ilusórias formas de eficiência e igualitarismo, a administração de uma Sec. de Cultura se resolve da forma mais simples e tradicional:

Um Diretor de Cultura (o Secretario, com 1 ou 2 assistentes) tem a função central junto a um colegiado de diretores, designados segundo cada setor artístico. Um Diretor para Teatro, um Diretor para Música, um Diretor para Artes Plásticas... Havendo mais setores do que possibilidades para diretores, estes podem acumular diretorias: o mesmo de artes plásticas cuida do artesanato, p. ex, ou o de música erudita atende igualmente a música popular. Ou os setores artísticos sem diretorias próprias podem ser acumulados pelo Diretor-Secretário.

Havendo possibilidades de Diretores suficientes, as categorias são desmembradas: um Diretor para pintura contemporânea, outro para pintura figurativa; um Diretor para música erudita, outro para popular: ou talvez um para dança clássica e outro para street dance, jazz, etc. Para o setor musical, 3, mesmo 4 diretorias, podem ser consideradas; (ou ainda, de modo criativo, uma diretoria para pintura abstrata e jazz, e uma outra para música clássica e pintura expressionista)...

É claro que critérios artísticos precisam definir estes setores e diretorias, de acordo com os contextos históricos reconhecidos, o que jamais poderia caber numa planilha burocrática-funcional prévia.

Uma Assessoria de Imprensa. Funcionários de manutenção e serviços para salas de apresentações, exposições e oficinas.

Além disso, uma Direção para cursos e oficinas, que pode ser da Assistência do Sec.-Diretor. A forma tradicional de agendamento de cursos e oficinas é a que mais favorece o desenvolvimento artístico conforme o verdadeiro perfil da sociedade: a Secretaria fornece salas e equipamento e faz o agendamento dos cursos e oficinas com tarifas de preços acessíveis aos estudantes. Estas são repassadas no todo ou em parte ao professor. Não seria necessário se ter admissões gratuitas a não ser para os casos especiais. Ao contrário das formas de planilhas que resultariam de um enredo interminável de regulamentações, o agendamento de cursos e oficinas resulta simplesmente da capacidade de discernimentio de um Diretor. Sempre em função dos espaços disponíveis, um Diretor decide pelo agendamento de, digamos, um entre três projetos do mesmo tipo para oficina ou apresentação artística. Os outros dois pedidos não atendidos serão compensados no tempo; ou no espaço, p. ex., dirigindo um grupo para outro Teatro de bairro que não a Sala-Teatro da Sec. de Cultura.

Nesse caso um Diretor (Secretário) de Cultura estaria realizando sua tarefa típica de orientar um determinado grupo artístico que tenha dificuldade de agendamento por sua natureza demasiado amadorística: ao invés da simples não-inclusão administrativa, o Diretor dá sugestões para a formação do grupo em início de carreira.

 

Caminhão de Cultura

[D] Além de conhecer e atender politicamente as demandas culturais e artísticas da cidade, um dirigente cultural deve ser capaz de projetar políticas necessárias, mesmo não requisitadas, como p. ex., um projeto de Caminhão de Cultura. (É necessário um projeto de caminhão com palco que percorra os bairros da cidade aos domingos levando teatro, música, dança e educação, para uma tentativa de se desviar o hábito arraigado da televisão.)

Um exemplo no qual o Secretário faz um projeto específico para obter dotação da Fundação poderia ser o de apresentações nas praças da cidade. A Fundação, neste caso, estaria incluindo estes espetáculos em seu roteiro turístico. É importante que a programação seja consequência da vida cultural interna da Secretaria, e não o oposto, tal como atualmente, em que a vida cultural segue a reboque dos eventos isolados de programação.

O hábito consagrado de se realizar concursos (pintura, teatro, música) para a promoção artística no Município precisaria ser reforçado enquanto experiência de jornadas, e experiências coletivas, e menos enquanto atribuição dos prêmios: a atribuição de “prêmios” em valores monetários aos primeiros (segundos, terceiros) lugares desestimula os “perdedores”. Para cada mostra, os “prêmios” deveriam ser os mesmos para todos os classificados. Melhor ainda, o prêmio artístico a ser entendido deve ser a apresentação num festival de escolhidos. Neste caso, a Sec. de Cultura apenas repassa a bilheteria do evento aos grupos “vencedores”.

O hábito da “disputa” entre concorrentes, que parece tão inocente, a rigor, não favorece o desenvolvimento artístico. O burocratismo das licitações e regras para concursos acaba por consolidar o espírito de competição como critério para escolha. A direção da cultura, no entanto, é um ato político, que pode seguir uma ética de compensações, e conforme o conhecimento técnico e específico das artes. Esta direção, feita por representantes da classe, visando objetivos específicos, preferenciais, deveria substituir o trabalho constante das comissões de jurados que, de modo aparentemente regrado e virtuoso, designam “vencedores”, que se distinguem de “perdedores”, e assim por diante.

 

[E] Na concepção dos “centros de cultura”, a exemplo dos centros de Nogueira e Pedro do Rio, e principalmente do Raul de Leoni, o mais importante é a atividade ininterrupta de cursos, encontros e apresentações, criando atividade social junto com atividade cultural para o público interno, sem necessidade de divulgação como grande espetáculo.

Em outros centros, como Casa Stephan Zweig e Casa do Alemão, é importante não se restringir somente à apresentação de acervo e informações, que se tornam pouco visitados, mas também, a exemplo dos outros centros, que sejam locais de atividades culturais específicas, constantes.

Na Casa do Alemão, conforme já indicado por membros do Clube 29 de Junho, poderia se instalar um clube cultural, como extensão do próprio 29 de Junho.

Alternativamente, a Casa Stephan Zweig poderia se conjugar com um clube cultural alemão. (Nesse caso, p. ex., a característica ideal do sobrado antigo na esquina próxima das Duas Pontes). Biblioteca com edições brasileiras de Zweig, edições alemãs de Zweig e autores seus contemporâneos, aulas de alemão, cinemateca alemã, cervejaria, etc, seriam modos de se preencher e justificar a referência à estadia do cronista em nossa cidade.

 

[F]Um exemplo de parceria natural entre a Fundação e a Secretaria seria a Festa do Alemão. Sendo a organização da festa tarefa da Fundação, é necessária na Feira uma barraca de cultura alemã, onde se fale o alemão e se receba turistas, com mapas do século dezenove da Alemanha e de Petrópolis, referências às famílias, à culinária, à geografia, etc, escritas em quadros em alemão e português – esta seria a tarefa da Sec. de Cultura. Seria interessante também a instalação de sala de agências de viagens, com referências à Alemanha atual, de modo a atrair turistas brasileiros para a Alemanha, e alemães para Petrópolis.

Uma vez que o Centro Histórico possa sofrer reformas para um calçadão quase contínuo, de modo a se tornar mais convidativo para turismo, a Festa do Alemão poderia ser estendida no espaço, para compensar o adensamento que provoca nos dias de seu calendário habitual. Sendo diversificada ao máximo com expressões artísticas, e sendo a principal atração turística do Município, a Festa do Alemão poderia ainda ser estendida no tempo, todo o mês de Junho, p.ex.. Desse modo seu valor comercial se estende mais, diminuindo o impacto ambiental cotidiano.

Seria interessante o deslocamento do monumento dos Expedicionários, para liberar a área central da Praça do Teatro (um novo nome...) para uma central de turismo. O prédio do Grande Hotel, numa tal paisagem urbana reformada, seria idealmente adquirido pelo poder público para se tornar Arquivo Municipal, Museu de História local, e um restaurante turístico no último andar. Para tanto, seria concebível a instalação de um elevador externo ornamental que criasse um ícone turístico. Num tal projeto, poderia se convencer a opinião pública a substituir este novo ícone turístico pelo atual obelisco, “monstro sagrado”, mas na verdade monumento pouco estético. No prédio do Grande Hotel haveria salas de memória sobre os emigrantes alemães, italianos, sobre os expedicionários da Segunda Guerra, etc, de modo a compensar a demolição do obelisco como monumento celebrativo.

C.M.B. // 2004


Tuesday, May 27, 2025

54 - Espectros

Espectros de Marx

Tribuna de Petrópolis

18 de Outubro de 2001

Jacques Derrida comenta de forma irônica as tentativas de driblar e ocultar os Espectros de Marx, que insistem em retornar e reaparecer ao final do séc. XX. Como o espectro do Rei Hamlet shakespeariano, que insiste em reaparecer aos seus soldados e a seu filho depois de sacrificado, enquanto seu enterro e o novo casamento da Rainha com o usurpador são feitos às pressas, as tentativas de enterrar o Karl Marx físico, individual, o autor simplesmente, apenas denotam o pavor diante do retorno infalível da teses marxistas e daqueles espectros de seu pensamento que pertencem, não a ele, o autor, mas à história social do Ocidente.

Os Espectros de Marx são aquelas modalidades de seu pensamento que pertencem ao tecido social no qual o pensador buscou se inserir analiticamente em seu tempo. Exatamente pela força de sua inserção, estes espectros estão se atualizando novamente em nosso tempo, através do tecido social. É o mesmo que dizer que, mesmo que alguns dos pensadores marxistas não existissem, estas idéias estariam presentes, porque pertencem de fato ao sistema e ao sentido em que está organizada a civilização do Ocidente desde a Revolução Francesa.

As definições de Divisão Social do Trabalho e Modo de Produção utilizadas por Marx são tão úteis e operacionais em 1850 quanto são em 2001. Desconhecer Marx como cientista social é o mesmo que desconhecer cada uma das diversas etapas em que o Ocidente desenvolveu seu Pensamento e seu auto-reconhecimento. Marx é um dos pensadores enraizados na cultura do Esclarecimento ou Aufklärung setecentista, cuja ambição maior era compreender, interpretar, analisar, o mundo, ou a sociedade, com alguma autonomia filosófica livre dos dogmas conceituais históricos.

A idéia de Ciência Social neste caso, não é uma idéia de verdade última ou conhecimento final sobre o que está acontecendo na Sociedade, mas de interpretação e conhecimento o mais objetivos possíveis, com o “despossuimento” da pessoa e dos dogmas individuais diante de um cenário que se pretende compreender. O caráter de construtivismo e de estruturalismo em Marx é o mais importante: a possiblidade de uma interpretação que se renova e que pode sempre abranger mais, formulando-se, assim, uma tradição de conhecimento. Marx fazia a análise e a síntese constantes de dezenas de pensadores socialistas e anarquistas de seu tempo.
















Carlos Marques nasceu na Renânia, o mais Cosmopolita distrito alemão, em meados da década de 30. Nos anos 50 fez estudos de Antropologia e Ciências Sociais em Frankfurt, onde se tornou catedrático, e vive até hoje, como um ESPECTRO de KARL MARX...
Recentemente declarou o ESPECTRO: "Pretendo viver mais que o velho marechal Hindenburg, para ver de pé a derrocada da Regime Financeiro Mundial, quando finalmente a Tese Socialista se tornará irrevogável".

Segundo ele, a privatização infinita da moeda levou ao anseio na direção oposta, que é a plena estatização da emissão monetária:
-- "A estatização da moeda é a conclusão lógica e historicamente necessária frente aos destroços do capitalismo financeiro, e o primeiro passo efetivo para o Estado Socialista".


Com seu papel contemporâneo de ditar os rumos da Cultura, a imprensa tem decretado ultimamente o “fim do Marxismo”, ou que “Marx não deu certo” como se o grande autor fosse um pensador voluntarioso (de acordo, exatamente, com o caráter subjetivista e voluntarioso como o pensamento social pequeno-burguês vê seus autores na realidade). Marx nos dá a lição, como todos os outros pensadores da tradição ocidental, de enraizamento na experiência social, empirismo e análise conjugadas. Num segundo momento de seu percurso Marx se torna também ativista, conforme o famoso lema “Os filósofos até agora interpretaram o mundo, é preciso doravante transformá-lo”. E isto é consequência da segurança obtida com as interpretações históricas feitas por ele e seus contemporâneos.

Marx, é claro, não deu receitas do “bem governar”, como Maquiavelli... A segunda grande preguiça mental do comentário jornalístico habitual é identificar o Marxismo com o regime soviético. Isto, é claro, em parte induzido pela necessidade de se identificar ideologicamente com um dos “dois lados” da confrontação Ocidente–URSS. As agências de notícias internacionais pró-ocidente são altamente monopolizadoras e concentradoras da informação, “matando” as versões diferenciais. As condições da política e da sociedade na América Latina, definitivamente, nada têm a ver com a “Queda do Muro de Berlim”. Inclusive, nos anos 60, os golpes de estado pró-EUA vieram exatamente num momento em que algumas nações da América Latina estavam tentando sair do dualismo da Guerra Fria.

Marx faz a análise da função das classes trabalhadoras dentro do Capitalismo, e desenvolve uma tese sobre seu possível desempenho na mudança da sociedade burguesa. Isto é a análise do desenho dinâmico de uma sociedade. De forma alguma,  uma receita de como se tomar o poder do Estado, e muito menos de como governar. O episódio da Revolução bolchevique, e toda a política leninista, é apenas uma versão possível dos fatos, assim como a política de outras lideranças revolucionárias, socialistas, comunistas, etc, em várias nações ao longo do tempo. É possível se inspirar nas análises e nas teses marxistas, assim como pode-se inspirar nas diversas leituras históricas, mas não é possível se responsabilizar uma leitura pelas condições políticas de uma sociedade. Se Marx houvesse atravessado vivo o séc. XX, provavelmente teria mudado de opinião sobre nossos Estados constituídos, assim como nós outros mudamos de opinião.

Já uma nova preguiça mental é dizer que “a Revolução Francesa deu certo”, ou que “O Capitalismo” ou os “Estados Unidos” deram certo, ou que a “URSS não deu certo”... Fica claro que depois da Revolução Francesa veio Napoleão, e que a Revolução de 1789 foi refeita e desfeita várias vezes, sendo portanto um processo histórico: E isso, exatamente, como os processos históricos analisados por Marx. Uma nova República, ou um regime socialista, não se instauram só pelo ato formal de instauração ou revolução. São atos que resultam de uma maturação de possibilidades ao longo de períodos.

Quanto aos Estados Unidos, ou o Capitalismo, dizer que “deram certo”, é muito difícil, no momento em que estas instâncias ameaçam a existência física do planeta (a equação: mais-valia igual a crescimento do PIB igual a Efeito Estufa). E a União Soviética, que teve seu fechado regime político desconstruído, resultou de um processo estatal concentrado, que levou uma nação camponesa à liderança no campo científico, tecnológico, industrial e militar: se é que isto significa “dar certo”!

Friday, May 23, 2025

53 - Artigos Petropolitanos

Prezado Leitor: Nesta data ao final de 2024 estamos inserindo mais seis artigos jornalísticos petropolitanos, e dois Programas para Cultura, nestas páginas a seguir do Blogue-Washington.

O Blogue Washington foi criado em 2007 para observarmos as peripécias de cinismo, abuso e cretinice que tomaram conta da Capital da República Ianque Desmoronada -- Desde os atentados "Nine-Eleven".


Notas da Cultura

Tribuna de Petrópolis

27 de Setembro de 2001

a) Para a maioria das pessoas Arte e Cultura são apenas Representação e Entretenimento. Faríamos canções, ou pinturas, ou peças teatrais apenas para celebrar tudo aquilo que já está, de uma forma ou de outra, reconhecido pela tradição. Para muitos, o Estado deve fomentar a Cultura no sentido de proteger os “direitos” daqueles que querem expressar profissionalmente a representação e o entretenimento, oferecendo salários públicos.

b) A parte mais relevante da criação artística, entretanto, tem sido estranha aos estados constituídos, estranha mesmo a qualquer fomento. Para muitos artistas é necessário “pagar” para poderem apresentar socialmente suas criações. Neste outro sentido, oposto ao anterior, estão os artistas radicais, que se vêem como revolucionários, e que só podem conceber a arte como contestação das formas sociais constituídas. Estes artistas, assim, deparam-se, queixosamente, com uma marginalidade já previamente suposta.

c) Neste divórcio, o Estado acaba por se tornar apenas um conservador de arte e cultura, protegendo a cultura conservadora. Na cultura conservadora estão os “eruditos”, aqueles que são capazes de reapresentar de forma cumulativa a história cultural, com acervos cada vez maiores de fatos já sabidos, ou que devem ser sabidos, de maneira a celebrar a Representação e o Entretenimento.

d) Numa nota especial na história da cultura conservadora devemos contemplar o Pedantismo: o fim da crítica e da auto-crítica, o exibicionismo da pessoa em torno de uma mesma questão consagrada, o ritual das homenagens mútuas, o reconhecimento do que já está reconhecido, a impossibilidade de criar, a linguagem legítima só pelo dicionário, a exposição do repertório cumulativo inútil, a cultura como bagagem – não como carruagem

e) A cultura clássica, habitualmente, é a maior vítima do Pedantismo. Na cultura clássica, alegria e serenidade se encontram, a tragédia, o humor e o romance se substituem infinitamente. Para muita gente, seria assustador, por exemplo, descobrir em Homero o tom desmesurado, aventureiro, arbitrário, por trás das traduções solenes, vetustas e empoladas.

f) De um lado a Cultura como Conservação, de outro como Transgressão: é difícil encontrar o comentário que descobre uma marca original, a crítica que descobre um valor falsificado no que foi consagrado, a nova versão que realça tons que estavam indefinidos, a recriação daquilo que foi dado como Real.

g) As sociedades felizes desenvolvem artes que têm o caráter clássico: a celebração devida de algo que esteve por muito tempo em maturação, que nasceu da contradição e da dificuldade, mas que, finalmente, pôde ser constituído e expresso. As sociedades estagnadas necessitam da arte revolucionária.

h) Somente um estado revolucionário pode sustentar arte revolucionária. O revolucionário não é a guerra civil. O revolucionário pode ser bastante pacífico e sutil: em verdade, é o revolucionário que pode evitar a guerra civil. Revoluções se tornam violentas quando inviabilizadas, pela violência sofrida, ou pela repressão sistemática à mudança, que se apresenta historicamente.

i) Em nossa cidade, os heróis do conservadorismo e da arrogância, duques e barões assinalados, continuam a fomentar o ódio ao Esclarecimento, disseminando preconceitos e a lógica maniqueísta. A diferença entre pobres e ricos é reiterada e estratificada, de modo a que os ricos tenham o mérito por sua riqueza, e os pobres a culpa por sua pobreza... Como se sabe, há muita pobreza espiritual que é consequência da riqueza material, assim como é possível o surgimento de gênios dentro da pobreza material.

j) Numa direção oposta ao sectarismo dos duques e barões assinalados, podemos observar o sectarismo da arte que denuncia a “repressão”. Tentando alcançar um caráter romântico, toda a ação está concentrada numa explosão emocional contida, que precisa ser “liberta”. Ao invés de libertários, tornam-se os sempre sofredores-da-arte, que necessitam da repressão, como tal, para a montagem de um sentido estético.

k) Em nossa pseudo-modernidade de celebrações tecnológicas, uma consideração especial deve ser dirigida aos artistas de teatro: rodeados por todas as máquinas que nos seduzem, estes artistas são capazes de entrar em ação apenas com a máquina de seus corpos.

l) O fato de a Arte Naïf ser tratada como tal, mostra como é difícil a conceituação do valor artístico. Por outro lado, a capacidade de pesquisa e elaboração de alguns artistas, inseridos em épocas ou classes sociais “ricas”, requer o reconhecimento de uma certa afirmação de valor elitizado. Os heróis do sectarismo confundem propositalmente o valor estético elitizado com o sentido de elite social e econômico valorizado, obliterando a abundância de produção Naïf na classe burguesa.
























Prédio de 1872, na Av. Koeler, 260. Já foi Colégio São José, e Fundação Cultural. Agora abriga a Prefeitura.
O jovem major e engenheiro Julius Friedrich Koeler era de Mainz, e emigrou para o Brasil, para se incorporar às nossas tropas. Dom Pedro Primeiro havia comprado as terras do atual sítio de Petrópolis, que eram de densa floresta, mas nada foi construído por ali. No tempo de Dom Pedro Segundo, a partir de 1843, o major Koeler conseguiu se instalar na Fazenda do Córrego Seco [Corrêas], já trazendo alguns colonos alemães. A Coroa em seguida contrata Koeler para fazer o mapa para a Povoação de Petrópolis, e a planta para o atual Palácio Imperial.


m) Um sectarismo mais recente, baseado num deslumbramento para eles original sobre um tema antigo, é o daqueles que acreditam ser a pintura abstrata não a conquista ritualística de uma etapa da experiência, mas a consagração consumada da arte pictórica (em termos da história da cultura ocidental). O dualismo abstrato versus figurativo é explorado como se encerrasse a chave filosófica da interpretação estética, resultando num discurso entediante.

n) A qualidade de abstração que é identificada à pintura contemporânea é fruto de uma pesquisa na direção das formas, substâncias e colorações originais na possibilidade da expressão, assim como das “forças” as quais pode possuir, ou ser por elas possuído, o artista que preenche uma tela. A arte que é “contemporânea” é um ritual de passagem e um comentário sobre o que já foi vivido.

o) Provavelmente, ao longo do tempo, a arte da pintura terá muito mais a característica mista abstrato-figurativo, do que as características exclusivas somente abstrato, ou somente figurativo. A tensão entre as duas concepções certamente retornará infinitamente no tempo cultural.

p) A arte revolucionária (ou qualquer ação com este caráter) deve ter a semelhança de uma Contracultura. Consequência, principalmente, do Pensamento da Costa Oeste norte-americana nos anos 70, a Contracultura se diferencia do revolucionarismo dialético, do alternativismo, do anarquismo, do pós-modernismo, da integração forçada, da decadência, da contestação e das “anti-culturas”.

O gesto dialético está profundamente envolvido com aquilo que deseja negar, ou superar, de modo que uma nova modalidade só pode surgir comprometida, numa ligação estrutural, com a velha modalidade: O diálogo é exaustivo, passo a passo, por meio de acordos e desacordos, de afirmação e negação, um recuo depois de cada avanço... A cultura dialética vive de uma ética tímida, sem o brilho estético ou filosófico.

Enquanto o Alternativismo é o simples afastamento e tentativa de sobrevivência ao largo, a Contracultura (no original, movimento de contraponto e retorno) é o ritual do afastamento, reconstituição da Cultura num sentido autônomo e crítico, inclusive das tradições, e reinserção polêmica na cultura oficializada. A condição interna do ato é de independência e provocação. Ao invés da contestação, a cultura oficial recebe um “presente”, que é suficiente para neutralizá-la, ou desconstruí-la.

C.M.Barroso – Centro de Cultura Raul de Leoni


Friday, November 8, 2024

52 - Qual o Significado de Israel

A página Princípio da Regência foi transferida para a Página-63:
63 - Princípio da Regência_1





Assim viam os Otomanos a divisão das províncias [1453 - 1918]


Qual o significado de Israel?

governo-washington.blogspot.com/22-artur-koestler-e-sionismo
governo-washington.blogspot.com/pagina-do-imperialismo-zionista
veteranstoday.com/a-tale-of-two-kingdoms-israel-and-judea
a_invencao_da_terra_de_israel_shlomo-sand/
citadino.blogspot.com/a-confirmar-se-o-genocidio-de-seis

O que Arthur Koestler e Shlomo Sand estão tentando dizer é que os “judeus” não são correspondentes aos “hebreus” da antiga nação, sendo nesse sentido “inexistentes”, enquanto "povo" e "nação".
Entretanto, Koestler é muito claro quando defende uma existência relativa, e pacífica, para uma moderna “Israel”...
"O direito à existência do Estado de Israel ... não baseado nas origens hipotéticas do povo Judeu, ou numa consagração mitológica de Abrãao junto a Deus – porém baseado na lei internacional"...






O Plano de Partição da Palestina de 1948, sob os auspícios da ONU, tem um desenho absurdo, como se uma geografia de contradições se revelasse nas negociações entre o governo inglês e a casa Rothschild. Os dois pontos de estrangulamento mútuo dos dois Estados previstos não parecem coincidir com planos de mentes sadias de europeus civilizados.












Por uma questão de civilidade, pacifismo, e conveniência demográfica internacional, o número de cerca de 800 mil “judeus” internacionais que emigraram para a Palestina estariam numa proporção compreensiva até o final dos anos 40... Presumivelmente 1,6 milhões seria talvez um número total máximo até os anos 70... [ou seja, 10% a 20% dos 8,4 milhões atuais].
Para aqueles que, no mundo árabe ou em Londres, aceitaram esta idéia, estes emigrantes teriam convivência econômica com as comunidades árabes, e seriam recebidos como parentes distantes, fugindo de conflitos europeus.
Uma geografia razoável para estas colônias de “judeus” seriam dois territórios, um ao norte, entre o litoral de Acre, o Mar da Galiléia, e a fronteira com o Líbano; e outro ao Sul, abaixo de Jerusalém, em torno do Mar Morto, incluindo parte da Jordânia, com acesso rodoviário ao porto no Mar Vermelho (Eilat), mas não incluindo o litoral, onde está Tel Aviv [ex-bairro de Jaffa]. Estas duas províncias seriam ligadas por extensão rodoviária ao longo do Rio Jordão, mas com um setor intermediário internacional centrado em Jerusalém, conforme os esquemas ingleses de 1937-47. Todo o resto do território, todo o litoral desde Gaza [a], de Jaffa até Haifa, e o restante da Jordânia, deveriam compreender uma única nação local, árabe.

Esta divisão hipotética estaria refletindo, apenas vagamente, as duas províncias da antiguidade, Judéia e Israel [920 até 597 a.C.] [b]; e da mesma forma estaria, apenas simbolicamente, dando reconhecimento mítico aos 3.000 remanescentes da idade média [cf. historiador Ramini] que reivindicavam costumes hebreus, na Palestina, em meados do séc. XIX. [c] Entretanto, esses precedentes não seriam justificativa para que estas terras fossem doadas - conforme Koestler, a justificativa seria o acordo de interesses cívico internacional.

A Tripa de Emigrantes Neo-Israelitas cortaria o Estado Árabe apenas segundo um eixo rodoviário norte-sul, através da Cisjordânia, onde haveria um estado internacionalizado centrado em Jerusalém, e através dos desertos do Sinai... Os Emigrantes trariam grande cooperação econômica, haveria um esforço coletivo para trazer água das montanhas para todos, e... “todos seriam felizes para sempre”... porém, fica claro que esta benevolente geografia somente seria possível se fossem efetivos os termos pseudo-humanitários em que a Liga das Nações [e depois a ONU] e o governo inglês apresentaram a proposta internacionalmente, desde o fim da primeira guerra mundial. Os aspectos “conspiratórios” da fundação e expansão de Israel estão por todos os lados, não só pela monumental expansão demográfica e militar.

Uma certa “história oficial” é escrita pelos neo-israelitas, para correlacionar versões bíblicas, dadas como “história oficial canônica”, com os fatos desde a divisão colonial do Império Otomano... A Veneranda História dos Hebreus estaria demonstrando que:
1) Eles sempre existiram com uma mesma identidade desde os tempos genéticos de Jacob e sua conversão/luta moral com Deus [circa 1400 a.C.]
2) Por esta razão teriam direito a voltar subitamente a suas terras históricas, em levas crescentes, vindas de mesclas em todos países do mundo, a partir dos anos de 1920...

O sítio JewishVirtualLibrary.org representa os neo-israelitas: estes são aqueles que se deixaram levar pela propaganda zionista, comprando a idéia de que “têm direito de morar em Israel”, porque são “descendentes dos Hebreus”. Os Zionistas são aqueles que sabem que a propaganda neo-israelita é somente instrumento para a ocupação e o jogo imperalista.

As premissas para a re-ocupação neo-israelita são:
1) O Povo “Judeu” se estabeleceu e deu desenvolvimento à Terra (de Israel)
2) A comunidade internacional conferiu soberania política na Palestina ao "Povo Judeu"
3) O território foi capturado em guerras defensivas
4) Deus prometeu a Terra ao patriarca Abrahão (e a Moisés; e Joshua)
jewishvirtuallibrary.org/jsource/myths/roots
Em todos os detalhes podemos observar a falta de consistência de tantas teses insustentáveis:
1) O "estabelecimento na Terra" se deu de modos diferentes, em épocas muito descontínuas ao longo de 3.250 anos, por povos (grupos sociais, etnias, tribos) diferentes
2) Não a "comunidade internacional", mas burocratas governamentais a soldos secretos de ordens de elite. A idéia de que "os árabes eram uma população dispersa e sem raízes", é utilizada para neutralizar a criação do Estado Árabe Palestina-Jordania. A mesma idéia é utilizada para justificar a criação de Israel: "Nosso povo estava disperso, precisamos reuní-los"... [assim trabalha o zionismo!!]
3) Sendo as guerras árabes por sua vez defensivas, em função do retalhamento do Império Otomano feito pelos imperialistas, e do extermínio de famílias palestinas em Jaffa e Haifa, feito pelas gangues zionistas.
No item 4 não se trata da sustentabilidade da tese - apenas um sinal ou recado displicente arrogante...






















Mapa da Cananéia, do séc. I ad, época da dominação romana.

[c] Um número estimado em 10.000 pessoas seria a população dos descendentes "espirituais" dos hebreus na Judéia, Samaria e Galiléia ao final do séc. XIX, identificados pelos laços religiosos que os uniam ao Templo em Jerusalém; e isto já contando com os primeiros emigrantes. Não é um número significativo, em comparação com a quantidade de Palestinos igualmente descendentes, genéticos, dos antigos Cananeus; e em comparação com as comunidades religiosas de hebreus e de outras religiões/culturas antigas, em todo o mundo...
Depois de 1881, as primeiras levas de imigrantes foram promovidos pelos zionistas, quando ainda o território pertencia ao Sultanato Otomano. A Monarquia Inglesa e a Casa Rothschild estavam desde 1876 construindo o Canal de Suez, em arrendamento com o Sheik do Cairo. Depois do fim da primeira guerra, uma nova leva de imigrantes foi promovida. Nos anos 30, antes que os nazistas começassem a perseguir os judeus na Alemanha, e com apoio de transporte naval do governo alemão, mais outra leva de imigrantes chegou em Jaffa. E depois do fim da segunda guerra - em número cada vez mais crescente.


[a] Os antigos Philisteus são a origem do nome Palaistinê-Palaestina, para a designação greco-romana da Cananéia.
Os Philisteus podem ter chegado no litoral Sul da Cananéia [Gaza] na mesma época [1250 a.C.], ou logo após, em que os hebreus entraram militarmente (general Joshua) nas colinas em torno do Mar Morto e Mar da Galiléia (Judéia, Samaria, Galiléia).
Os soldados de Joshua dizimaram implacavelmente os civis Cananeus. Os conquistadores e Reis Hebreus em tudo foram semelhantes aos Assírios, Egípcios, Gregos e Romanos: na violência militar; nas crises de príncipes hereditários, esposas e concubinas; nas revoltas de tribos e súditos.
Os Philisteus haviam chegado à Cananéia como “povos do mar”, tidos como europeus que "conheciam o ferro". Desde o período 1000-930 a.C. de máxima expansão do reino dos Hebreus, os Philisteus sempre se mantiveram adversários dos Hebreus, e nunca se mesclaram ou se submeteram ao seu Reino.
Os Palestinos de Gaza poderiam sustentar um mito semelhante ao dos neo-israelitas e zionistas: Que eles têm perfeita continuidade com os Philisteus; que eles sempre foram invadidos e pilhados pelos Hebreus; que sempre defenderam suas terras, morando no mesmo lugar, com os mesmos costumes... Todas as transformações sociais de 3 milênios seriam ignoradas.

[b] O que se poderia considerar a nação do antigo Reino de David-Salomão, as duas tribos Judéia e Israel, como o povo dos Hebreus, deixa de ter significado a partir das conquistas Assírias e Babilônicas, de 722 até 588 a.C. ... e isso conforme o sítio neo-israelita
jewishvirtuallibrary.org/jsource/History/Kingdoms1.html

"O Reino dos Hebreus, que teve seu começo com a promessa e a glória de David, estava agora [-588] chegando ao seu fim. Ele não reapareceria novamente, exceto por um breve período do séc. II a.C."
"Assim, a partir de 597 a.C. existiram três grupos distintos de Hebreus: um grupo na Babilônia e outras partes da Mesopotâmia, um grupo na Judéia, e um outro grupo no Egito".

Os Assírios se fixaram na Samaria, e exilaram famílias inteiras de israelitas para diversos recantos, de modo que eles se mesclaram, e desapareceram na história. Os Assírios estabelecidos entraram em sincretismo com a religião de Yaveh.
Os Babilônicos também exilaram Judeus e Israelitas para sua metrópole, porém eles foram mantidos como comunidades, que se preservaram culturalmente. Os Persas se tornaram novos senhores da região, e o Rei Kyrus decidiu mandar os Hebreus de volta para a Cananéia em 538, o que resultou num certo renascimento nacional, e refundação do Templo de Jerusalém em 516 a.C.
Desde este período, atravessando os séculos da dominação macedônica (selêucida) e da dominação romana, as duas províncias dos hebreus nunca mais voltaram a ter autonomia nacional. No ano 135 ad, o caudilho militar Bar-Kokhba, cognominado “nasi” (salvador, messias étnico) liderou uma revolta contra o domínio romano, mas não foi bem sucedido.























Esse mapa que retrata o período de maior expansão dos hebreus durante a monarquia de David e Salomão, 1010-930 a.C., parece sofrer das mesmas pretensões que os zionistas e neo-israelitas atuais... A proposição de que as fronteiras do novo reino se estendiam até o rio Eufrates, incluindo toda a Síria, é relativa, durou muito pouco tempo, e foi somente militar, não no sentido de povoamento e colonização. Logo após 930, o controle territorial de Jerusalém diminuiu bastante, e os hebreus ficaram concentrados numa faixa nas montanhas em torno do vale do Rio Jordão, até a chegada dos Assírios em 722.
Os Fenícios, que eram aliados e sócios comerciais de Salomão, certamente dominavam uma porção bem maior do litoral do que o indicado. E, da mesma forma, os Philisteus, adversários constantes, parecem ter seu espaço [em amarelo] boicotado nesta representação, tal como nas campanhas atuais...

É evidente que a cada nova sucessão histórica das jurisdições, fenícios, hebreus, assírios, babilônicos, persas, egípcios, macedônicos, romanos, árabes, otomanos e modernidade, a Cananéia passou por diversas misturas físicas e de costumes, sendo formadas sempre novas sociedades, da qual todos são descendentes. Além do mais, a descendência física de uma povo, não significa que alguém possa reivindicar “a mesma terra dos antepassados”... Para cada remanescente atual dos povos-nações da antiguidade este precedente criaria contradições intermináveis... Os índios na América do Sul deveriam exigir judicialmente todas as terras na região central amazônica, e fundar suas próprias dinastias... E os Kurdos, porque não recebem apoio da “comunidade internacional"...?

Os descendentes dos antigos Hebreus se espalharam pelo mundo desde a invasão macedônica [322 a.C.], e se tornaram multiplicadamente variados e miscigenados. Muito mais descendentes de Hebreus se espalharam pelo Mediterrâneo, se estabelecendo em Roma, na Grécia, Egipto, norte da África, Síria e Anatólia, do que aqueles que permaneceram na Cananéia. A idéia de uma “diáspora” provocada por Romanos intolerantes no séc. I ad, não é confirmada pela vida venturosa dos hebreus de Alexandria, mais numerosos que em Jerusalém. Os cultos e educados 70 sábios hebreus de Alexandria compilaram e re-escreveram em grego no séc. I a.C. o Velho Testamento – legenda religiosa mesopotâmica, porém fazendo recurso a termos e concepções do paganismo órfico e jônico... [e]

[e] As concepções de demiórgos [Deus Criador Panteísta]; pneuma [substância sensível universal]; e logos [ordem universal expressiva], foram re-assimiladas para significar Deus [no sentido absoluto platônico], espírito santo e verbo divino. Epicteto e a Sabedoria Estóica [1996], J.J.Duhot, Ed. Loyola, 2006.


Entretanto, uma certa continuidade de credo religioso, e um direito insondável, fazem necessária a existência do “judeu internacional”, “judeu da diáspora”, mesmo quando, em alguns casos, ele é ateu, mora em N.Y., é trotskista, anti-sionista, etc.
Pirenne [f] faz uma bela reconstituição da vida no Mediterrâneo, nos séculos I a VII ad, quando o mundo greco-romano viveu a estabilidade civilizada centrada em Byzantium, que Roma não desfrutava mais. Os descendentes hebreus se espalharam pelo Mediterrâneo ativamente, sendo estimados em todos os portos como bons comerciantes, como burgueses cosmopolitas, cultos e educados, auto-confiantes... e isso exatamente como seus semelhantes fenícios e gregos. (Tornando-se todos eles, possivelmente, classe social).
A apresentação do hebreu-judeu como ente distinto deste mundo cosmopolita e integrado em que eles viveram nestes primeiros séculos, neutraliza a impressão favorável do estudioso sobre estes descendentes e emigrantes auto-disciplinados, que souberam se instalar nas comunidades, porém mantendo seus costumes... [e trazendo alguns ofícios cabalísticos desconhecidos!].
[f] Maomé e Carlos Magno, [Contraponto 2010], Henri Pirenne [1862-1935]